21
dez
2011
Últimas do ano

Sr. Noel, quero uma bike aro 26, favor comprar aqui.
Faltam 10 dias para o fim do ano, mas, como pretendo seriamente ficar do Natal até o Ano Novo sem usar internet, este é meu último post de 2011.
2011 pode ser classificado como um ano…Estranho. Começou bem, muito bem. Aí, em abril, resolvi virar uma asceta em todos os sentidos – e fiquei assim até o início de outubro. Ou seja, metade do meu ano foi dedicado à tentativa de me evoluir espiritualmente, e essas tentativas foram, salvo exceções, extremamente frustrantes. Conheci o cristianismo, messianismo, budismo, espiritismo, e tudo o mais que consegui. Foi um excesso que, no fim das contas, acabou dando um nó mental.
Estamos na era dos excessos. O fato de termos muitas oportunidades nos deixa ainda mais confusos, tamanha a quantidade de caminhos disponíveis. Consegui abandonar as coisas que descobri e mais me identifiquei (Yoga/Meditação) para descobrir outros caminhos interessantes, mas que fizeram deixar de me aprimorar no que me identifiquei.
Erramos, mas temos que ser humildes de voltar atrás.
Se você acha que está feliz com seu emprego, saúde, relacionamento, crença espiritual, esporte, etc., não fique buscando sarna pra se coçar – até porque, oportunidades para tal não faltam. O que aprendi em 2011 é: se o time está ganhando, não tente conhecer os outros times – tente se aprofundar nele.
Senão, viramos uma colcha de retalhos de conhecimentos pós-modernos.
Até mais, 2011.
Obs: a melhor coisa do ano? Conhecer a bicicletada e todas as pessoas maravilhosas que compõem a Massa Crítica.
Saúde e paz.
16
nov
2011
A vida na cidade nos domina?
Acabo de almoçar no Centro Cultural São Paulo e apanhei, apressada, a nécessaire para escovar os dentes e retomar o trabalho/estudo (sim, estudar e trabalhar dá um desgaste mental que só quem o faz sabe o que estou falando).
Olho umas imagens expostas do Will Eisner, que está em cartaz com a exposição “Espírito Vivo de Will Eisner”, no CCSP. A exposição do desenhista/escritor de quadrinhos é excelente, e contém algumas frases do autor. Ele diz:
“O povo das cidades sempre me pareceu um tanto especial nos hábitos e estilos. Acho que a vida dentro das grandes cidades afeta a sensibilidade básica e influencia o caráter da conduta do homem de tal modo que afirma a vitória do ambiente sobre todos nós” (1989)
Sobre a família:
“Famílias são em geral fisicamente indistinguíveis uma das outras (…). Seus núcleos são mantidos por uma atração magnética que as vezes não parece ser nem de amor nem de fidelidade” (1998)
As frases são fortes, mas me senti envolta por elas. Como se, de fato, a cidade tivesse me devorado e me sinto vítima das circunstâncias: do trânsito, da violência, da indiferença, da pressa. Meu cérebro e meu corpo devem acompanhar o ritmo alucinado de São Paulo, sob a penitência de ser arrastada pela multidão que quer embarcar no metrô e chegar em casa LOGO para ver TV rapidamente, dormir e começar tudo de novo.
Quem vive em grandes cidades perde totalmente a noção dos ritmos da natureza, da natureza humana, negando-a, veementemente. Negamos nossos pequenos prazeres, nossas vontades animais e naturais – como comer, dormir e sexo – e as trocamos por outras – vícios, jogos, pressa, violência, consumismo. Uma forma de controle ao sabor de nosso sistema social e político, cujo discurso, implícito, é:
- se você sente prazer em comer, quem vai consumir nossos produtos de dieta?
- E, se você faz sexo em vez de comprar e comprar, como faremos para vender nossa publicidade sexualizada?
- Mas, e se você quiser dormir em vez de jogar games, como venderemos mais e mais?
Trocar essa energia eletrizada das grandes cidades pelo campo, por exemplo, nos fará retomar esse ritmo biológico que está aí, gritando dentro de você, para que você durma, coma e etc – ele sabe o jeito saudável de fazer tudo isso.
Vá para o campo de vez em quando, ou sempre. A cidade quer te devorar – se já não o fez.
31
out
2011
A pele que habitamos
O título é uma homenagem ao ótimo e perturbador filme de Almodóvar, A pele que habito. Não assista o filme com pessoas que se abalam muito: há cenas de sexo, morte, ultra violência e sangue, muito sangue.
Sou meio fascinada pela morte, não no sentido mórbido, mas no sentido da nossa vida ser tão vã e que temos de agradecer, todos os dias, por estarmos vivos.
E, em uma semana presenciei, por coincidência, duas cenas de morte bem chocantes:
1) Terça feira, 16 horas, metrô Sé: uma mulher cai no vão do metrô e, bem…O trem passou por cima dela. Tumulto, pessoas olhando o sangue espalhado pelo vão do trem, outras desmaiam, choram, perturbam-se pela confusão e pelos consequentes atrasos. Não tive coragem de olhar o ocorrido, porém notei como o ser humano tem vontade, ainda que irresistível, de presenciar cenas tão chocantes. Quis olhar o sangue, mas voltei atrás, pelo trauma que irreversivelmente viria.
2) Domingo/segunda, 0 horas, bairro Saúde: indo em direção ao carro, presencio um automóvel atropelando um motoqueiro. “Ele morreu! Ele morreu! E agora, minha senhora, o que você vai fazer?”, diz um anônimo a motorista, ao tocar no motoqueiro, agonizando seus últimos instantes neste planeta.
Volto para casa na madrugada de domingo, sentindo-me atormentada com o sentido da vida e com as fatalidades a que todos nós estamos expostos – neste caso, pela violência no trânsito causada (não se esqueça) por pessoas.
Tomo um banho antes de dormir. Ao sentir a água escorrer pela pele que habito, sinto que estou viva, mas que as vezes me comporto como morta, a mercê dos acontecimentos, deixando de protagonizar minha própria vida. Um exemplo? Quando perco meu tempo navegando na internet, sem fazer nada, literalmente. Apenas consumindo minha vida e permitindo que ela seja sugada pela rede.
Após escrever estas linhas, sinto-me na responsabilidade de protagonizar algo hoje. Seja o protagonista dos acontecimentos de sua vida, sempre. Porque, quando menos espera, alguém irá presenciar a sua morte.
24
ago
2011
Sem lenço nem documento
Essa é a primeira vez em minha vida que fico literalmente sem dinheiro. Sem um centavo na carteira e na conta bancária. Sem na-da.
É uma sensação de absoluta fragilidade e, ao mesmo tempo, é uma sensação de emancipação. Em uma sociedade de consumo, você só percebe que tudo deve ser consumível quando não tem dinheiro e não consegue se locomover porque não tem passe monetário para rodar a catraca.
Nunca percebi que teria de andar de bike não por ativismo, mas por pura falta de dinheiro para pegar um metrô. Também caminhei pelas ruas sem dinheiro, documento, nada. Esse paradoxo é interessante, porque, ao mesmo tempo, te dá uma liberdade absurda. Falei há tempos que havia deixado de caminhar ou pedalar com fones de ouvidos. Nos últimos 15 dias, ando sem nada, sem cartão, dinheiro, só com meu celular antigo que não vale nem 100 reais, garanto.
Não digo que é bom ficar sem dinheiro, longe disso, é uma sensação de pânico iminente, horrível mesmo. Mas, no fundo no fundo, te dá uma sensação de que você é só isso mesmo, um amontoado de carne que se locomove e que é mais vulnerável do que imagina.
Foi um período sabático interessante, que durará até amanhã. Sem dinheiro, sem consumo, sem muita vida social, sem diversão pela diversão, sem propósito, sem doces. Mas me fortaleci horrores e meu corpo físico e mental agradeceu – só que, confesso, ele quer voltar à ativa.
Somos extremamente vulneráveis a tudo.
Embora não seja das minhas favoritas, adoro esse trecho da música Money, do Pink Floyd:
I’m in the hi-fidelity first class travelling set
And I think I need a Lear jet
10
jun
2011
A disciplina de estudo faz o monge
Encontrei essa imagem digitando “cemetery”. E não é que deu uma mulher estudando?
Interessante que, quanto mais disciplinados ficamos, mais natural é ser disciplinado. Tenho dormido às 10 da noite (não dormia neste horário desde os tempos de colegial) e acordado às 6 da manhã. Não é meu horário biológico ideal, mas, como meu lar está em reformas, sou expulsa de casa por volta das oito (e tenho que correr, porque demoro para começar o dia) e viro uma nômade em minha bicicleta.
Nestas pedaladas e caminhadas, descobri várias bibliotecas e tenho trabalhado e estudado nestes ambientes. Incrível como é mais produtivo do que qualquer outro lugar, como o coletivo com cara de preocupado e imerso em algo te faz adquirir disciplina semelhante e sem distrações.
Em duas horas, faço coisas que não faço no dobro do tempo quando estou em outro lugar que não a biblioteca. Depois de sentir que o cérebro fritou, saio para tomar um ar, pedalar e/ou caminhar (normalmente caminhadas são mais tranquilas para mim).
Sempre fui daquelas que andava com livros debaixo do braço para estudar em qualquer lugar. Exemplos:
- no metrô (clássico) e no ônibus (nem tão clássico, porque pode trazer enjôos se for um circular);
- no cemitério – o melhor lugar para divagar e anotar as reflexões enquanto se caminha entre os túmulos com frases de efeito. Eventualmente, pode se deparar com um funeral e choros; mas, com o tempo, você se vacina e não sente mais comoção;
- em shows e festas. Já estudei para o vestibular no show do Olodum e conseguia ler apostilas do colegial enquanto as pessoas requebravam;
- na praia e na beira da piscina: para o TOEFL, em plenas férias de janeiro;
- no ônibus de viagens: adoro viajar de ônibus (viagens longas mesmo) para ler e estudar enquanto o vizinho dorme ao lado;
- em festas familiares de fim de ano. É só se esconder da galera, que eles não percebem seu sumiço;
- em cafés: não precisa ser aqueles chiques e pomposos. Quanto mais vazio e aleatório, melhor.
Hoje, no entanto, evito estudar em locais bizarros, porque a imersão definitivamente não é a mesma. Nos locais públicos, como ônibus e metrôs, prefiro somente pensar e, eventualmente, anotar tais pensamentos.
Também, ao evitar estudar em locais inapropriados, adquiri a disciplina de ser fiel a algumas bibliotecas de São Paulo. Minhas favortias até o momento são a do CCSP, da Faculdade de Saúde Pública (USP) e da Unifesp, mas estou descobrindo outros locais, como um espaço de leitura da Prefeitura pertinho de casa.
Pela popularização das bibliotecas em todos os locais possíveis. Essa seria a minha campanha para meu lugar coberto favorito.



